Centro Cultural da Paulicéia


Metáforas da realidade

Existe uma teoria bem difundida com relação a estudos de cinema que diz que nenhum filme mostra com realismo a época que ele pretende retratar. Ele mostra uma visão contemporânea sobre aquela época. É por isso que filmes como Titanic (1997) não mostram o que aconteceu em 1912, mas a visão americana da década de 90 sobre aquela época.

Ótimo. Mas e os filmes de ficção científica? Estes são nada mais do que metáforas da realidade. Analisar a trajetória deles durante a história do cinema a partir da década de 50, quando borbulhavam nas telas, é muito interessante. O final da 2ª Guerra Mundial e o começo da Guerra Fria refletiram-se no cinema de maneira indubitável. Nos anos 50 e 60, por exemplo, as fitas de ficção científica resumiam-se a pintar aberrações produzidas pela ciência em filmes como A Mosca (1954 - Kurt Neumann), ou fazer inteligentes alusões e metáforas sobre a Guerra como em Alphaville (1965 - Jean Luc Godard).

A ficção científica atual pode ser muito bem representada por filmes como A Ilha (Michael Bay) e A Guerra dos Mundos (Steven Spielberg), ambos lançados no último ano. A Ilha é um filme de ficção que se propõe a tratar de possibilidades reais. O roteiro inclui um laboratório especializado na produção de clones para finalidades terapêuticas, chamados de "apólices de seguro". Se você está doente e precisa de um transplante, encomende um clone seu! Ritmo bom, atuação surpreendente de Ewan McGregor, em dois papéis, e trama instigante. Além de, é claro, a pontada habitual na consciência dos defensores da ciência.

A Guerra dos Mundos é um caso à parte. Tinha tudo para ser um clássico, daqueles de assistir várias vezes com baldes e mais baldes de pipoca. Mais Spielberg resolveu ser mais Spielberg do que nunca. O resultado foi uma cópia insossa de Sinais (péssimo!). O roteiro ficou famoso por uma lendária brincadeira de Orson Welles em outubro de 1938, em que ele leu o livro homônimo do escritor H. G. Wells no rádio, apavorando milhões de americanos, que acreditaram que a Terra estava mesmo sendo invadida por alienígenas. Ultrapassou os limites da ficção científica.

A Guerra dos Mundos de Steven e Cruise é apenas uma desculpa para milhares de mensagens sobre o lugar do exército americano no mundo, o papel dos terroristas e o sentimento dos americanos nisso tudo. Todos os detalhes acrescentados no roteiro dizem respeito a isso. Pra piorar, temos a garota-prodígio Dakota Faining (O Amigo Oculto) em mais uma perfomance irritante e sem-graça. Ao sair do cinema, o alívio toma conta dos espectadores. Paramos de ouvir os gritos estridentes de Dakota e nos livramos da arrogância de seu diretor: Spielberg acredita que só seu nome basta. Pura ficção...



Escrito por Vanessa às 15h24
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