“Clube da Lua” mostra, de forma sutil, as conseqüências da crise argentina nas relações humanas

Os tangos sensuais embalam ardentes namorados. Os jogos típicos e os ritmos latinos davam momentos de prazer e confraternização a crianças e adultos. O salão, sempre lotado, imprimia vida a uma época que em quase nada lembra a atual Argentina. Os anos 60 foram memoráveis e simbólicos. Representam para o país a grandiosidade que foi perdida com a crise econômica dos primeiros anos desta década.
Está aí a beleza de “Clube da Lua” (Luna de Avellaneda - Argentina/Espanha, 2004), em cartaz nos cinemas. O filme conta, com sutileza e graça, umas das muitas histórias originadas com a crise argentina, mas que apenas nos é mostrada por meio dos índices econômicos.
A nova parceria entre o diretor Juan José Campanella e o ator Ricardo Darín - que já tinham trabalhado juntos em “O Filho da Noiva” - , por meio de um pequeno grupo de pessoas do subúrbio metropolitano portenho, humaniza as conseqüências dessa crise enfatizando o seu impacto no cotidiano dos argentinos, mas sem se deixar cair no melodrama nacionalista.
O filme desenha a trajetória de um clube social e esportivo da periferia de Buenos Aires, onde o taxista Román, interpretado por Ricardo Darín, nasceu e passou a maior parte de suas horas vagas. Em seus tempos áureos, o estabelecimento chegou a ostentar oito mil sócios, mas, atualmente, apenas 300 associados mantêm as atividades do Clube de Avellaneda.
Não bastasse a dor da decadência, a diretoria descobriu que devia à Prefeitura cerca de dez vezes a sua receita anual e que teria que vender o clube para transformá-lo num cassino se quisesse se livrar das dívidas. Em suma, o roteiro não ajudava muito, tinha tudo para ser um clássico do dramalhão.
No entanto, o que salva a produção é o foco. Campanella prefere se aprofundar nos personagens e instigar uma curiosidade saborosa pelo ser humano a encher seu filme de clichês - embora não resista a alguns. Mantém como pano de fundo as conseqüências de uma conjuntura econômica em frangalhos, mas se dedica a fazer uma investigação minuciosa das reações que ela produziu nas pessoas.
Ricardo Darín e Eduardo Blanco, no papel de Amadeu são, nesse sentido, os produtores principais de uma mensagem sensível e mais humana. Blanco tem uma participação brilhante, fundamentada em seu talento inegável de ator, e na direção do filme, o tempo todo atenta para os sentimentos complexos, como amor e dedicação...
“Clube da Lua” reúne, em duas horas e meia de filme, história e desaprovação políticas, humor inteligente, atores de ótimo nível e uma direção inspirada. Juan Campanella ganharia pontos se investisse mais em sua criatividade e trabalhasse em seus roteiros eliminando a idéia de que alguns lugares-comuns são garantia de salas lotadas.
Escrito por Vanessa às 15h41
[ ]
[ envie esta mensagem ]
|